segunda-feira, 6 de maio de 2013

Da pesquisa sobre o parto

No dia 28/03/2013 eu fiz um post sobre Violência Obstétrica e nele eu convidei as leitoras e algumas mães de fóruns virtuais para participar de uma pesquisa sobre como foi o parto de cada uma delas. A ideia era fazer um levantamento se essas mulheres haviam sofrido intervenções médicas, que acredito que muitas nem se deram conta que a maioria eram desnecessárias.

Foram 173 respostas! O número me surpreendeu positivamente!!

Agora vamos estudar as respostas juntas?!

 
Da região: A maioria (51%) das mulheres estão na Região Sudeste; seguido da Região Sul (26%); Centro-Oeste (12%), Nordeste (8%) e Norte (3%).




Foi perguntado para as entrevistadas se "ao engravidar e ir nas consultas obstétricas, você desejava parto vaginal ou cesárea?" e 46% das mulheres responderam que desejavam um parto vaginal sem intervenções; 43%, vaginal com intervenções; e apenas 11% desejam fazer cesárea desde o início.
Ou seja, 89% das entrevistadas desejavam ter seus filhos de parto normal / natural!! (Mas será que conseguiram?!)

A pergunta seguinte foi: "No decorrer das consultas, seu obstetra lhe orientou e explicou as diferenças e riscos dos tipos de parto?" e 52% disseram que não e 48% que sim.
Número bastante equilibrado ao meu ver, mas será que esses 48% realmente ouviram a verdade? As explicações partiram expontaneamente do médico ou elas o questionaram? Quando digo "a verdade", digo pensando nas mulheres que ouvi pessoalmente, na rua ou nas reuniões do Ishtar, onde os médicos davam as explicações mais estapafúrdias possível, como: "normal é melhor, mas você vai ficar igual a uma couve-flor" ou ainda "normal é legal, mas você vai ficar cega, já que é míope". 

A próxima pergunta foi sobre onde o parto delas aconteceu e 53% tiveram seus filhos em hospital credenciado pelo plano de saúde, 18% em hospital público (SUS), 12% em hospital particular, 9% domiciliar, 3% em Casas de Parto gratuitas e apenas 1% em Casas de parto pagas. O restante (3%) deram como respostas outros (alguns partos não aconteceram no Brasil). Ou seja, 88% dos partos foram hospitalares (as respostas dos "outros" foram hospitalares), 9% domiciliar e apenas 4% em casas de parto. 88% das mulheres foram para o hospital por se sentirem mais seguras, ou porque "é assim que tem que ser"? Por que não utilizamos mais as Casas de Parto? Por terem poucas? Por não sabermos de sua existência? Por não "confiar"?



 A pergunta seguinte foi: "Você chegou a entrar em Trabalho de Parto?" e 71% responderam que sim e 29% que não.  




A próxima pergunta foi "Qual foi o parto que você teve?" e  44% foi cesárea, 30% vaginal com intervenções e 26% vaginal sem intervenções. Por que índices tão diferentes do que as mulheres desejaram? Não foram respeitadas? O quadro se desenha quando você separa o desejo da mãe com o que ela realmente teve:

Porcentagem Desejo Realidade
11% Cesárea Cesárea
23% Vaginal com intervenções Cesárea
15% Vaginal com intervenções Vaginal com intervenções
5% Vaginal com intervenções Vaginal sem intervenções
9% Vaginal sem intervenções Cesárea
15% Vaginal sem intervenções Vaginal com intervenções
22% Vaginal sem intervenções Vaginal sem intervenções

Ou seja, 48% conseguiram fazer valer seus desejos. E o restante, que teve seu parto ideal não realizado? O que a fizeram mudar? Alguma emergência? Decisão baseada em alguma outra coisa (opinião de outras pessoas, etc)? Como elas se sentiram com essa alteração?!


 A pergunta seguinte foi: "Com quantas semanas seu bebê nasceu?" e 61% responderam que foi entre 37 e 40 semanas completas, 28% entre 40 e 42 semanas completas, 10% antes das 37 semanas completas e 1% após as 42 semanas.


A próxima pergunta foi: "Se você queria parto vaginal, mas teve cesárea, qual foi o motivo da cirurgia?" e foram obtidas as seguintes respostas (como era várias alternativas, a soma poderá ultrapassar o número de respondentes):
7 por voltas do cordão umbilical
1 por descolamento prematuro de placenta
3 por bacia estreita e/ou outros problemas com sua bacia
4 bebê pélvico
2 bebê transverso
2 bebê com dorso à direita
1 por placenta prévia parcial ou total
8 por pouco líquido amniótico
1 por adolescência
6 pelo tamanho do bebê
2 por desproporção céfalo-pélvica
3 por cesárea anterior
6 por sofrimento fetal agudo
6 por parada de progressão
1 por asma
6 por bebê alto
10 falta de dilatação antes do trabalho de parto
6 bolsa rota
4 por mecônio
2 por idade gestacional maior que 40 semanas
2 data escolhida a dedo por você
5 medo (dor de parto, do que poderia acontecer com você, etc)
7 placenta grau III/envelhecida
19 de outros (diminuição drástica dos batimentos cardíacos do bebê, gravidez ectópica cervical, pressão alta, gestação gemelar, problemas de insônia, angústia, dores, sofrimento, nidação muito próxima à trompa, bartolinite, cirurgia de emergência com 6 meses de gestação).

Mas será que sabiam essas mães que foram para a cesárea que, segunda Dra Melânia Amorim, são indicações de cesárea:

REAIS
1) Prolapso de cordão – com dilatação não completa;
2) Descolamento prematuro da placenta com feto vivo – fora do período expulsivo;
3) Placenta prévia parcial ou total (total ou centro-parcial);
4) Apresentação córmica (situação transversa) - durante o trabalho de parto (antes pode ser tentada a versão);
5) Ruptura de vasa praevia;
6) Herpes genital com lesão ativa no momento em que se inicia o trabalho de parto.

PODEM ACONTECER, PORÉM FREQUENTEMENTE SÃO DIAGNOSTICADAS DE FORMA EQUIVOCADA
1) Desproporção cefalopélvica (o diagnóstico só é possível intraparto, através de partograma e não pode ser antecipado durante a gravidez);
2) Sofrimento fetal agudo (o termo mais correto atualmente é "freqüência cardíaca fetal não-tranqüilizadora", exatamente para evitar diagnósticos equivocados baseados tão-somente em padrões anômalos de freqüência cardíaca fetal);
3) Parada de progressão que não resolve com as medidas habituais (correção da hipoatividade uterina, amniotomia), ultrapassando a linha de ação do partograma.

SITUAÇÕES ESPECIAIS EM QUE A CONDUTA DEVE SER INDIVIDUALIZADA, CONSIDERANDO-SE AS PECULIARIDADES DE CADA CASO E AS EXPECTATIVAS DA GESTANTE, APÓS INFORMAÇÃO
1) Apresentação pélvica (recomenda-se a versão cefálica externa com 37 semanas mas se não for bem sucedida, discutir riscos e benefícios com as gestantes: o parto pélvico só deve ser tentado com equipe experiente e se for essa a decisão da gestante);
2) Duas ou mais cesáreas anteriores (o risco potencial de uma ruptura uterina – variando de 0,5% - 1% - deve ser pesado contra os riscos de se repetir a cesariana, que variam desde lesão vesical até hemorragia, infecção e maior chance de histerectomia);
3) hiv/aids (cesariana eletiva indicada se HIV + com contagem de CD4 baixa ou desconhecida e/ou carga viral acima de 1.000 cópias ou desconhecida); em franco trabalho de parto e na presença de ruptura de membranas, individualizar casos.

E que todo o resto é desculpa de médico?!


Ainda, a pergunta seguinte foi: "Marque as alternativas que fizeram com você durante o parto" e obtivemos as seguintes respostas (como era várias alternativas, a soma poderá ultrapassar o número de respondentes):

36 Fizeram raspagem (total/parcial) de pêlos
98 Fiquei em posição deitada         
79 Tive liberdade de movimentos           
50 Aplicaram soro com ocitocina       
8 Usaram medicação para preparar o colo do útero       
62 Pude usar bola, chuveiro, banheira,...       
14 Fiquei amarrada ao cardiotoco  
65 Auscutaram o bebê com sonar de tempos em tempos       
12 Me amarram nos estribos (perneiras)
31 Amarram meus braços       
10 Fizeram lavagem intestinal       
80 Aplicaram-me anestesia        
41 Sofri episiotomia (ou pique)       
8 Me suturaram sem anestesia       
75 Fui informada de todos os procedimentos       
11 Gritaram comigo para eu não gritar       
45 Permitiram o uso de luz baixa       
89 Cortaram o cordão umbilical assim que o bebê nasceu       
51 Cortaram o cordão umbilical quando ele parou de pulsar       
37 Forçaram a saída da placenta       
37 Pude amamentar no centro cirúrgico       
59 Pude ficar com o bebê no colo o tempo que eu quisesse       
12 Executaram as intervenções no bebê no meu colo       
91 Executaram as intervenções no bebê no "berço"       
13 Fui dopada após a saída do bebê da sala/centro cirúrgico       
68 Pude me alimentar e beber água       
14 Abaixaram o campo cirúgico para que eu pudesse vê-lo nascer       
101 O meu acompanhante ficou comigo o tempo todo       
32 O meu acompanhante apenas entrou na sala quando iam tirar o bebê       
39 Tive o acompanhamento de uma doula       
51 Fizeram mais de três toques durante o trabalho de parto       
24 Existiam pessoas estranhas na sala/centro cirúrgico (estudantes, etc)       
33 Subiram em minha barriga para ajudar o bebê a sair       
22 Outros (faziam fofocas e piadas durante o procedimento, fiquei sozinha do centro cirúrgico, não tive acompanhamento durante o parto, só vi meu filho após horas de seu nascimento, não fui consultada durante os procedimentos, médico estourou a bolsa sem avisar, utilizaram instrumentos - fórceps/extrator a vácuo, indução de parto sem consentimento, )

Revendo essa lista, você consegue observar a quantidade de mães que sofreram intervenções desnecessárias?

Foi perguntado também "Você acha que teve uma boa experiência de parto? Por quê?" e obtivemos respostas diversas, já que era palavra livre. As respostas foram equilibradas, metade das mães relatam ter tido boa experiência e metade não. Geralmente não obtiveram boas experiências aquelas mães que não tiveram o parto desejado, e mesmo aquelas que relatam terem tido uma boa experiência com a cesárea, por exemplo, reclamam da recuperação. E o que mais chamou atenção foi o número de reclamações com relação ao tempo de separação mãe-bebê, ao fato de darem fórmulas para o bebê no berçário sem o consentimento da mãe, falta de comunicação entre a equipe médica e a parturiente (procedimentos realizados), as desculpas médicas para a não realização do parto normal, conversas "non sense" entre a equipe durante os procedimentos, e a palavra "culpa" aparece e vários pequenos relatos.


A pergunta seguinte foi "Baseada em sua experiência do momento de parto, o que você recomendaria para uma gestante?" e muitas parturientes recomendam que a mãe se informe; escolha uma equipe que abrace os desejos dela e passe segurança; que tente parto normal e somente recorra a cesárea quando necessário; que a mãe não se deixe levar por opiniões dos outros; que a parturiente tenha uma doula; que frequente grupos de apoio à gestante; curta a gestação!!


O que você achou do resultado da pesquisa? Os dados crus você pode acessar aqui (e aproveite para ler as respostas das duas últimas perguntas). Você esperava esses resultados? O que mais chamou sua atenção?

4 comentários:

  1. Alininha, o mais impressionante para mim não é nem a quantidade que quer, mas sim a quantidade que consegue... =(

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  2. Gostei do resultado. Continuo batendo na tecla que o mais importante é encontrar um bom médico, um "de verdade". Esse é o segredo. Se você encontra um obstetra com formação humanista, que coloca a mãe em primeiro lugar, não importa o tipo de parto, porque ele será o ideal para quela gravidez, aquele momento. Eu tive a sorte de ter encontrado um médico assim, mas é cada vez mais raro esse tipo de profissional. Outra dica é se informar, o máximo que puder. Isso dá segurança pra mulher e evita aberrações médicas. Parabéns pela iniciativa.

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  3. Sim, eu acredito na humanização do processo, desde que a mãe seja informada de tudo, para fazer as suas escolhas baseada em conhecimento e não em achismo. A humanização começa no suporte, no apoio à decisão com conhecimento de causa!! Vamos cruzar os dedos para que todas um dia tenha acesso à esse tipo de atendimento, não só no parto, mas em todo e qualquer procedimento médico!!

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