Nascimento da Laura - VBAC - Parte 4

Continuando o relato do nascimento da Laura, que está sendo dividido em partes, pois acho importante relatar todo o processo que passei. Prometo que essa é a última!! rs As demais partes podem ser lidas em Parte 1Parte 2 e Parte 3.


No carro eu procurei relaxar. Tarefa difícil eu diria. Cleber raramente pega o carro (sou dessas que adora dirigir e se apodera do carro rs) e seria sua primeira vez dirigindo de madrugada. Mas como era previsto e sabia que poderia contar com ele, entreguei-me ao processo que estava acontecendo. Eu só lembrei de pedir para ir para uma pista sem tanta ondulação (difícil na linha vermelha, né?!) para que eu pudesse não sentir tanto desconforto.

Me lembro de ir de olhos fechados, abstrair o caminho, e passar pelas ondas uma de cada vez. Conseguia me manter calada, para não assustar o Cleber, pois estávamos sozinhos no carro. Algumas vezes eu abria os olhos, flashes do aeroporto, do hospital do fundão, da maré, ... Lembro da pista livre...  Na altura do pedágio da linha amarela me lembro da dor ter sido tão forte que eu mudei de posição, a anterior não era mais confortável e por instinto coloquei a mão entre as pernas. E elas vinham mais e mais fortes.

Finalmente chegamos na Perinatal da Barra. Eram 03:50h do dia 05/07/2013. Cleber esperou a cancela abrir e com o carro entrou na contramão do estacionamento me deixando na porta da maternidade. Esperei a contração passar para sair do carro. Levantei e mais uma. Andei até o balcão da recepção e outra. Ali vi a enfermeira que iria coletar o sangue do cordão chegar. Instantes depois, a Fernanda (GO) chegou. Olhei nos olhos dela em negativa e ela, serena, acenava que sim. Mais uma contração. Ela perguntou qual seria o quarto, os seguranças disseram 509 e largamos o Cleber cuidando da papelada e subimos, Eu, Sabrina e a Fernanda e um dos seguranças. Cleber ligou para a Beta, a fotógrafa e a avisou que estávamos na maternidade com 2cm. No elevador,  a Fernanda ainda brincou com ele, pois ele vestia All Star com blaser ou algo assim rs. Tive uma contração dentro do elevador e só lembro de vocalizar. Nem imagino o que teria passado na cabeça do cara. A porta do elevador se abriu no quinto andar. Vi o berçario vazio. Mais uma contração. E vamos andando para o corredor da suíte, e vi o enfeite de maternidade do quarto 508. Redondinho, azul, com um ursinho amarelinho escrito Davi (o nome que eu daria à Jade se ela fosse menino rs). Ali Fernanda acelerou os passos, foi em direção da enfermaria. No mesmo instante senti uma força diferente. Não doía mais a lombar, muito menos o osso púbico. A dor era outra, uma vontade incrível de fazer força. Tanta que me desmontou, ajoelhei e sentei, de tão forte. E sentada, em meio à onda, olhei para a Sabrina e disse: "muita vontade de empurrar!!", e vocalizei bem alto AAAAAAAAAAA sem me importar com as vizinhas de quarto e ela me olhava doce e respondeu "isso é bom". Olhei para o fundo do corredor, ainda em meio à onda e vi a Fernanda voltando correndo e outras enfermeiras saindo correndo em minha direção. A Fernanda e a Sabrina e a enfermeira do andar me ajudaram a levantar e entrar no quarto.

Deitei na cama para a Fernanda  fazer o toque (primeiro com ela, segundo e último em toda a gestação). Ali ela exclamou: "tá nascendo!".
Para mim era pegadinha do malandro. Como estaria já completamente dilatada? E aquele padrão de 1cm/hora?! Fu-ra-da. Definitivamente não estou nos padrões. Eu só queria saber se o Cleber ia demorar lá embaixo. Nesse momento a doula Ana Lúcia chegou. Mais um rosto conhecido para me apoiar nesse momento. A Fernanda pediu que chamassem o Cleber, estávamos indo para a sala de parto e a papelada que ficasse para depois. A Fernanda e a Sabrina tiraram meus anéis e brincos. Tiraram meu vestido e me colocaram a roupa da Perinatal. A maca chegou. Isso tudo em meio a contrações que me pediam para empurrar. Fomos pelo elevador, o maqueiro e a Sabrina. Tive uma contração ali. Gritei. Impossível segurar!

No corredor entre o elevador e a sala ficamos só eu e o maqueiro. Encostamos na recepção do centro cirúrgico e em meio a uma contração ouvi a enfermeira perguntar meu nome. Esperei a onda passar e respondi. Partimos para a sala de parto. Chegamos na sala de parto humanizado 3. A mesma que fiquei durante a indução da Jade. Mas agora eu estava ali para parir e não ser enganada novamente. Seria minha vitória. Por mim e pelas meninas.

Sai da maca e deitei na cama da sala. Lá tem aquelas camas cheias de frufru que ficam em várias posições. Arrumaram os apoios dos pés, e a Sabrina inclinou um pouco a cama. Nem tive como deixar inclinar muito, pois num certo ponto minha lombar gritou. Não sei se ela da cirurgia de hérnia ou sei lá o que. Sei que não deu. A Fernanda pegou a barra de ferro da cama, encaixou e passou álcool, brincando com a Sabrina "mania minha né?". Nesse momento o Cleber chegou. Durante as contrações era possível conversar, durante não dava. As contrações do puxo são realmente diferentes, você sente o bebê escorregando pelo canal de parto.

Mas eu ainda estava com medo. Meio de parir? De me partir no meio? De fazer coco? Eu pedia para a Fernanda me ajudar. Ela sentada aqui com a touquinha laranja na cabeça só me dizia que era eu quem tinha que me ajudar. Ela estava ali para me ajudar. Veio uma contração.. Segurei na barra e gritei. Não um grito AAAAAA, mas um gutural, daqueles de cantor de rock heavy metal. A Fernanda entreolhou para a Sabrina fazendo careta rs. Mas eu não empurrei, travei. Medo de coco! Lembrei que isso mostra que realmente era hora, quando a cabeça passa no canal de parto, ela pressiona o reto e o que tiver ali vai sair, não tem jeito. Mas os profissionais sabem e esperam esse momento, até porque mostra a evolução do parto. A Fernanda e as meninas falaram que era para deixar acontecer. E mais uma contração. Não empurrei e pedi para alguém tirar ela dali. Sei lá o que me deu. Medo? E se doesse quando coroasse? E se rasgasse? E  em meio a vários "e ses", a Fernanda veio ao pé do meu ouvido , com a mão no meu coração, me dizer que a Laura estava vindo, estava ali. Me disse que era capaz! E voltou a se sentar olhando nos meus olhos. E ainda me disse que ela estava ali, para eu tocar. Pensei: como assim tocar? Tentei, mas não a senti, ela ainda estava um pouco para dentro e não tive coragem de tentar.

A contração veio. Senti arder. Gritei que estava ardendo, sabia que era o círculo de fogo, e me soltei em outro grito gutural. A contração passou. A Fernanda disse que na próxima contração ela poderia nascer. Num momento de lucidez vi que estava ficando sem registro do parto. A fotógrafa não chegara a tempo. Pedi para fotografarem, mas a sala era escura demais para que a máquina fizesse um registro decente (salvaram-se poucas rs). A contração veio e me entreguei. Outro grito daqueles e fiz força. Senti a Laura coroar. Continuei fazendo força, senti ela rodando dentro de mim ainda. E depois, alívio. E Fernanda a aparou e a colocou em cima de mim.

Minha pequena havia chegado, eram 04:43h do dia 05/07/2013.  Laura ficou sobre minha barriga, onde antes era sua casa, até que o cordão parasse de pulsar e então o Cleber cortou. Pude trazê-la mais para perto. Olhar as mãos e a pererequinha rs. Coloquei-a no seio para mamar e senti um calor novamente passando pelo canal de parto. Era a placenta. Tiramos foto daquele órgão que cuidou da Laura durante toda a gestação e com 39 semanas e 5 dias ele encerrou seu ciclo de vida. A placenta foi entregue a enfermeira do banco de sangue, que  saiu para sala para terminar seu serviço. A Fernanda verificou a necessidade de dar alguns pontos, já que Laura saiu com a mão no rosto. Enquanto ela daria os pontos, pedi que o Cleber pegasse a Laura e pudessem ir para o berçário fazer as medições. Ele seguiu acompanhado da neonatoligista Claudia. Uma enfermeira da Perinatal pediu para eu assinar uns documentos, eu falei que não tinha condições afinal tinha agulha na minha perereca (rs) e não tinha condições de assinar nada, mas que depois assinava qualquer coisa. A ocitocina intra muscular foi aplicada para ajudar no sangramento que estava um pouco aumentado. Enquanto dava os pontos (não me pergunte quantos) conversarmos sobre um jantar que a Fernanda teve e sobre a conversa com outros ginecos lá presentes. Riamos.

Eu estava leve. Realizada. Nosso parto foi melhor do que pode imaginar. Fui respeitada, não tive episiotomia, o trabalho de parto foi mais rápido que eu esperava (menos de 4h), não me furaram com acessos, pude beber água (lembro da Ana correndo na sala de médicos para pegar e eu tinha uma garrafinha na sala rs), pude sentir meu corpo trabalhar, Laura nascer, estava com pessoas de confiança e que me apoiaram! Com qualquer outra equipe no primeiro pedido de cesarea, ela teria sido feita e toda minha busca teria ido água abaixo. Meu VBAC fora conquistado!

Esperamos o maqueiro chegar e me despedi da Ana e da Sabrina para elas trocarem de roupa e fiquei em frente a enfermaria do centro cirúrgico esperar a Fernanda preencher uns formulários no computador. Chamei a enfermeira da assinatura, pedi desculpas e o papel para assinar. Comentei que estava com fome e ela se afastou em direção a sala de médicos e voltou com um iogurte de morango. Esse gesto foi muito doce da parte dela, outra teria ignorado... Agradeci e tomei o iogurte num gole só. Subimos para o quarto e lá estavam a Sabrina e a Ana me esperando. Cleber desceu para ir buscar Laura no berçário. Ele disse que não aplicaram o nitrato de para como pedimos e nem deram banho, somente lavaram seus cabelos. Aplicaram a injeção de vitamina k, mediram (52 cm) e pesaram (3885g). Ela não ficou em encubadora, estava no carrinho me esperando chegar no quarto para subir também.

Fernanda chegou e ficamos ali tricotando esperando a pequena subir. Somente quando ela chegou é que elas foram embora. A única prescrição médica foi novalgina, andolba para os pontos e não dirigir por quinze dias.

Todo esse caminho percorrido valeu a pena. Sentir-se acolhida foi tudo!  Parto natural dói? Sim, não há como negar. Mas que dor é essa que se transforma em sorrisos assim que o bebê nasce? Que sofrimento é esse, que culmina com um bebezão em seus braços? Quem me dera reviver aqueles momentos que só ficaram na lembrança e nos flashes de minha memória! Se você me perguntar "e aí, normal ou cesarea?" vou te responder com a maior certeza do mundo "natural, com equipe que te respeite e te apoie".

Agradeço a Ginecologista Obstetra Dra. Fernanda Macêdo, pois sua certeza e transparência nas consultas, sua segurança nos dá a certeza de estarmos fazendo o certo; a Enfermeira Obstetra Sabrina Seibert pelas palavras doces e carinho durante todo o processo; a doula Ana Lúcia Andrade, por ter vindo ao meu encontro quando precisei, pelo acolhimento; ao meu marido Cleber, por ter vestido a camisa da humanização comigo e ter percebido que essa foi a forma mais carinhosa de recebermos nossa filhota no mundo; a minha filha Jade, por me ensinar a ser mãe dela e a querer sempre o melhor para elas; a Laura, por me dar ganas de correr atrás e conseguir nossa vitória, seja bem-vinda; a babá Lúcia, por nunca duvidar de mim e estar presente nos momentos que precisamos para ir assis encontros e no momento do parto; a doula Aline Amorim, pela ajuda nos encontros pré-natais; a Flavia Bernardo, por ter me tirado da matrix; e as amigas ativistas virtuais e reais, dos grupos de facebook e do Ishtar, vocês foram a fonte de informação primordial.

20 comentários

  1. Lindo e emocionante! Fiquei muito feliz por vcs!! Parabéns e um grande beijo em vc e nas suas lindas filhas!!!

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  2. Que lindo, Camila!!! Emocionante esse capitulo final! Parabéns pela conquista. Bjs

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  3. Parabéns, e nunca vou me cansar de dizer que foi com a sua ajuda que eu passei a acreditar mais em mim e consegui meu VBAC, antes, eu me sentia incapaz de parir, talvez me visse com algum defeito de fábrica, algo assim. Infelizmente não consegui que meu parto fosse natural sem intervenções como eu tanto queria, mas ainda assim eu consegui o que um dia eu sonhei, que o Rafa nascesse na hora dele, que eu entrasse me trabalho de parto, que aquele fosse o nosso momento e foi. PS. Detalhe que eu também pedi cesárea e a GO plantonista a todo tempo me incentivava a seguir, isso foi fundamental. Beijos amiga

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  4. Citando uma grande escritora Rosaura Soligo: "Momentos colecionados, em imagens ou em palavras. Fragmentos de um discurso amoroso da vida." Bate perfeitamente! Parabéns

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  5. Muito lindo!!! Parabens por essa conquista!! Vc foi uma guerreira! Bjkas

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  6. Camila, parabéns pelo parto! que bom que foi tudo lindo e do jeito que vc queria! Acho que trabalhamos na mesma empresa e fizemos o projeto da rede social juntas! Não é vc?? eu trabalho na comunicação. beijos

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  7. Sim, Ju. Sou eu mesma! Estou esperando vc terminar o seu relato tb.

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  8. Que bom que pude fazer a diferença para você Anne. Bjks nos meninos

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  9. Obrigada Flavia, vc me indicou o caminho e faz parte dessa conquista.

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  10. Lindo, lindo, lindo!!! Feliz demais por vc!
    Meu caminho foi um pouco inverso rs depois de 2 partos normais, sonhei com um terceiro parto natural que terminou em cesárea....nem sempre dá certo, nem sempre é possível, mas ver que as pessoas estão começando a repensar esta possibilidade como algo positivo e possível, me deixa muito feliz tb....como já te disse, fique até com vontade de tentar de novo kkkkkkkk
    Bjs amiga e parabéns por essa conquista e por ajudar a fazer a diferença para outras crianças que chegarão a esse novo mundo de forma natural e humanizada!

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  11. <3
    Que história linda! Parabéns Camila!
    E que o próximo seja em casa! XD

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  12. Que relato lindo Camila! Que orgulho desse mulherão que vc é! Parabéns Jade e Laura pela mãe leoa que escolheram!

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  13. Paula obrigada pelas palavras. Vc e as demais meninas não tem noção do quanto ajudam mães como eu a se inspirarem.

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  14. Adorei, me emocionei.. e mais do isso, me sinto inspirada e mais forte para seguir em frente na minha decisão!
    Obrigada pela relato, e toda ajuda/força que tenho recebido.
    Bjssss

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  15. Helena, é com prazer que eu ajudo as amigas a viverem esta experiência incrível!! Você vai conseguir!!

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